tech-savvy-babyEu amo música, especialmente rock (sou músico também, e por um bom tempo tentei fazer disso minha profissão definitiva; até hoje, estou sempre tocando em alguma banda, mas isso é outra história). Minha iniciação musical coincide com o advento do compact disc no mercado. No início dos anos 90, comecei a consumir ferozmente os álbuns das bandas de Seattle, e também Metallica, Faith No More, Stone Temple Pilots e outras coisas, que eu comprava com minha mãe no shopping ou em andanças quase diárias na galeria do rock – morando na Av. São João, bastava atravessar a rua. Em casa, colocava o CD no player e passava horas ouvindo, cantando junto, acompanhando com as letras do encarte.

Agora, ao ponto: diferente do MP3 ou a própria internet, acredito que essa mídia – o CD – me fez dedicar um bom tempo à atividade de ouvir música, com certa profundidade, pois eu ouvia os discos inteiros, examinando encarte com fichas técnicas, sabendo quem escreveu o quê… Enfim, adquirindo um conhecimento mais completo do artista e da obra em questão. Sem falar no quanto isso ajudou meu inglês.

Não me entenda mal, eu não sou um entusiasta das velhas tecnologias como os vinilófilos. Usei muito o Napster e também vibrei com o “reposicionamento” da indústria fonográfica, adoro meu iPod e navego na web o dia inteiro como qualquer pessoa das gerações Z, Y e boa parte da X. Mas é fato que a internet mudou radicalmente – e continua mudando – a forma como absorvemos conhecimento e a relação que temos com alguns produtos, como música, notícias, livros etc.

Outro exemplo: naquela mesma época, quando eu tinha que fazer um trabalho para a escola, o caminho era quase sempre o mesmo: ir à biblioteca, juntar na mesa uma pilha de enciclopédias e livros e sobre o assunto e começar a garimpar toda aquela informação, filtrando o que eu precisava. No processo, eu encontrava muita, muita coisa que não era o que eu estava precisando. Mas mesmo assim, acabava lendo e aprendendo um pouco sobre assuntos adjacentes ao meu tema central, ou mesmo distantes dele – informação “irrelevante” para a situação, mas que acabava ficando no meu cérebro e certamente foi e continua sendo usada em outros momentos.

O escritor Nicholas Carr, muito conhecido por discutir este assunto, argumenta em seu famoso artigo O Google está nos deixando burros? que a internet está até mudando a maneira como pensamos. Segundo o autor, a praticidade proporcionada pelos mecanismos de pesquisa e pelos hyperlinks nos induz a pular constantemente de uma página para outra, em uma abordagem superficial, e que no médio ou longo prazo isso estaria reduzindo nossa capacidade de se concentrar em uma leitura mais profunda:

“Imergir em um livro ou um artigo extenso costumava ser fácil. Minha mente prendia-se na narrativa ou nas voltas do argumento, e eu passava horas passeando por longos trechos de prosa. (…) Agora minha concentração muitas vezes começa a se espalhar depois de duas ou três páginas. (…) Eu não sou o único. Quando menciono o problema a amigos e conhecidos – a maioria literatos – muitos dizem que estão tendo experiências similares. Quanto mais usam a Web, mais precisam lutar para manter o foco em leituras extensas.”

Não sei se estamos ficando “mais burros”. Certamente essa questão varia muito de pessoa para pessoa. Além disso, me parece que, a cada geração, nossa espécie se transforma um pouco para acompanhar as mudanças. Também me parece que, graças à internet, nunca se produziu tanto conteúdo na história da humanidade. É a grande característica da Web 2.0: as plataformas estão aí para que você possa escrever, gravar, produzir, vender, comprar, publicar, interagir, discutir, revolucionar. E revolução aqui é no sentido literal – Gaddafi que o diga.

Toda essa produção é o outro lado da mesma moeda: existe muito conteúdo, e fica difícil absorver tudo porque criamos muito mais conteúdo. Talvez o aprofundamento em determinados assuntos seja apenas uma questão de aprender a gerenciar tudo isso e ser seletivo, sem deixar de conhecer e experimentar as tecnologias. Falando nisso, o Kindle ficou barato e minha mulher quer me dar um de Natal…

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